Quem disse que a grávida do coração não sofre aborto?

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Eis aí uma boa pergunta!

Levando em consideração que quase ninguém se dá conta que uma pessoa que 

espera um filho por adoção está grávida na alma, pouca gente pensa (ou acredita) que esta gestação possa ter abortos!

 Antes de continuar, vamos às definições de aborto no dicionário! Esta é do Dicionário Online de Língua Portuguesa
 
Significado de Aborto
s.m. Expulsão espontânea ou provocada do produto da concepção antes do momento em que ele se torna viável.
Fig. Insucesso: o aborto de uma empresa.
Trocando em miúdos, o aborto não é apenas a morte de um feto. É a interrupção de um  projeto, 
qualquer que seja, que não tenha chegado a termo. O aborto se dá, justamente, na necessidade que existe de se desconstruir um projeto, um plano, um sonho que por algum motivo foi interrompido. Esta desconstrução causa sofrimento, causa dor, causa a sensação de perda.
O aborto propriamente dito é a interrupção de um projeto (o da maternidade). É muito sofrido para uma mãe que sonhava com o filho, que estava fazendo planos de vida com este filho ter que desconstruir esse projeto pelo ‘não’ que a vida deu. Isso, logicamente, falando de abortos espontâneos, ok?
Na adoção, na gravidez do coração, não é diferente. A gente passa a construir um mundo em torno da maternidade, passa a sonhar, a planejar, a desejar ver o filho logo. Passa a pensar na casa, na segurança, no espaço, no quarto, no enxoval, nos brinquedos. Enfim, passa a construir um mundo incluindo um filho que não tem data para chegar, mas que está sendo gestado na alma tão intensamente como quem gesta no corpo o seu rebento.
Pois bem, nem sempre acontece de a grávida do coração ser chamada e de dar tudo certo
. Podem acontecer inúmeros fatores que façam com que o chamado não seja a efetivação da maternidade! É nesse momento que se dá o aborto da grávida do coração! Quando a expectativa é frustrada de alguma forma por algum ‘não’ inesperado. A dor neste momento é imensa e intensa. O sentimento de perda é inevitável. A desconstrução e a vivência do luto são necessárias para que se comece a sonhar e reformular um novo projeto, uma nova espera. E sim, nessa nova construção nasce o medo que dê algo errado novamente, assim como acontece com a grávida biológica que perdeu e que engravida novamente!
Eu nunca engravidei fisicamente, mas sofri 3 abortos significativos que me marcaram muito. O primeiro de uma menina de 7 anos que queria muito ser minha filha e a quem eu desejei de corpo, alma e coração ser mãe. Doeu ter que me afastar dela. Dói até hoje não saber como ela está e o que aconteceu em sua vida. Dói, hoje, pensar que eu já poderia ser até avó, que poderia ter uma filha formada na faculdade. Esta menina, hoje, tem em torno de 26 anos e certamente, sem sombra de dúvidas, viveu naquele abrigo até seus 18 anos! O segundo aborto foi um trio de irmãos que eu precisei abrir mão. Eram 3 crianças, eu já tinha duas, as condições eram difíceis por aqui e eu não tinha como cuidar adequadamente de 5 crianças, sendo duas bem doentes e usando fraldas. Eles foram adotados, soube que estão muito bem, porém doeu e ainda dói. Ainda penso em como seria hoje se os 3 estivessem aqui. Quando eu tive que decidir pelo ‘não’ deixei com eles um pedaço da minha alma e confesso que demorou para eu vivenciar esse luto e poder replanejar a espera novamente. O terceiro foi uma garotinha l
inda, deficiente visual, parecidíssima com a Taís que eu amei de paixão só pela foto. Quando fui consultada para ela todo meu ser dizia SIM, mas as possibilidades financeiras (sempre elas!) disseram não! Ela vivia em outro estado, muito longe, nós teríamos que passar dias lá e eu tinha um bebê com refluxo que demandava cuidados e gastos.
Estes três foram abortos! Eu senti na alma, eu chorei, eu senti uma perda irreparável, uma dor incomparável e eu penso neles até hoje. Como qualquer grávida biológica que lembra do seu bebê e pensa como seria a vida se ele tivesse nascido eu penso nos meus 3 abortos da alma e é inevitável não pe
nsar em como seria se eles estivessem aqui. Dos 3, apenas a primeira eu nunca mais soube notícias. Saber que os outros estão bem é um alento, mas não elimina a marca que ficou na minha alma.
Quando o Tales nasceu eu soube no mesmo dia. A notícia era que ele tinha nascido, mas que tinha dado trabalho no parto por ter sido um parto normal com 3 circulares de cordão no pescoço. Eu trabalhei em hospital e sabia o que isso podia significar. Pensar que ele podia ter morrido enforcado me fez chorar um dia inteiro, pensar que ele poderia ter alguma sequela como paralisia cerebral por falta de oxigenação me dava calafrios. Eu só pensava em ver as notas do Apgar quando chegasse lá e qua
ndo eu contei para algumas pessoas que meu filho havia nascido e o que havia acontecido – naturalmente pela minha natureza eu contava chorando – algumas destas pessoas falaram: ‘mas nem foi você quem gestou! Se ele tivesse morrido ou se tiver problema você pode esperar outro, afinal ele nem é seu ainda’.
Ouvir esse tipo de coisa era como uma lança no meu coração! Como assim eu poderia esperar outro? Como assim ele não era meu ainda? Ele era meu desde antes de eu saber dele. Era meu apenas pelo telefonema falando que ele existia porque eu o esperava fazia anos. Era dele que eu estava grávida do coração e da alma. Se ele tivesse morrido no parto eu teria sofrido como se eu o tivesse gestado no meu corpo! Se ele tivesse ficado com sequela eu não teria esperado outro perfeito porque ele era meu. Ele era perfeito para mim, fosse como fosse.
É disso que estou falando! Da falta de sensibilidade das pessoas pelo desconhecimento do que seja uma gravidez do coração! Da falta de humanidade, até, porque não se fala um troço desses que falaram para mim para mãe nenhuma!
Fica aqui o alerta: a grávida do coração sofre abortos quando algo dá errado. Ela sofre. Dói muito ter que desconstruir a espera para reconstruir novamente e eu creio que não difere em nada da perda fisiológica de um filho!
Por favor, sejam humanos com as mães do coração! Se não compreenderem a situação e a dor delas, ao menos não falem coisas que as façam sofrer mais, afinal dói muito perder um filho, seja pela forma que for, ainda que quem não vive este mundo adotivo não compreenda que ‘aquela criança estranha’ é um filho em potencial, esperado, desejado, planejado e amado como um biológico!
Na ausência do que dizer nestas situações,
apenas abrace!  Apenas abrace!
 
Beijos, Cláudia.
 
 Lindo texto de Cláudia Gimenes
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Uma mistura de sentimentos.

Ainda estamos esperando o relatório ser enviado ao Ministério Público, confesso que estou meio chateada e um pouco frustrada, sei que demora, que tem pouco pessoal e que o que tem está sobrecarregado e tantos outros motivos, mas sonhar não custa e um milagre é possível! Nós havíamos decidido que faríamos o quarto das crianças sob medida, prá aproveitarmos todos os espaços possíveis, então como o marido estava de folga, fomos dar uma xeretada nas lojas prá termos idéias e passar para o marceneiro… Pois bem, andamos, andamos, conversamos,até que paramos em uma loja e nos encantamos por um jogo de quarto, parece que foi feito prá nossas crianças, é perfeito e vai caber certinho no quarto deles… fizemos orçamento e por incrível que pareça, o valor é abaixo do que estávamos esperando e podemos gastar… mas a idéia inicial era sob medida, então eu dei a desculpa de não sabermos se iria caber no espaço disponível que temos e depois da gerente oferecer descontos e bônus, saímos de lá e concordamos que é o melhor a ser feito, pois não temos um profissional de confiança e há uns dois anos, minha filha mandou fazer um guarda roupa sob medida, simples, algo normal e foi gasto em torno de R$ 4.000,00, imagina um quarto completo? Chegamos em casa e realmente fomos tirar as medidas e vai dar certo. O jogo tem um roupeiro com 4 portas, uma cama com cama auxiliar e um berço que vira mini cama, a qual acomoda uma criança até 5 ou 6 anos… lindo, maravilhoso!! Decidimos comprar, além do mais, demora de 45 a 60 dias prá entregar e montar, enquanto isso vamos arrumando aos poucos o resto, pois a decoração só quando meus amadinhos chegarem!!

Mudando de assunto… Tenho lido, visto vários vídeos e conversado muito com pais que já adotaram, com psicólogas e advogados, o foco é sempre adoção, a demora do judiciário e a quantidade de pretendentes e crianças que não fecha a conta… Pois bem, de todos os pretendentes que tenho contato, posso dizer que apenas um ou dois casais fazem restrição á irmãos, por conta financeira mesmo, mas não há restrição quanto a cor, sexo e idade… aí fui dar uma xeretada no cadastro de habilitados de uns grupos que faço parte, primeiro vi as várias reclamações que estão na fila há 3, 4, 5 anos…. achei demais e fui mais a fundo, olhar o perfil dos habilitados e me surpreendi, a maioria desses que estão todo esse tempo esperando, o perfil é quase o mesmo: Menina, branca, sem irmãos, de zero a dois anos, saudável. Meu Deus, filho não se escolhe!!!! Quando se engravida, o sexo já é sabido pelos genitores? Lá atrás, no dia, na noite, sei lá que horas que o ato foi consumado, já se sabe o sexo do bebê? Outro ponto importante, porque apenas de zero a dois anos? Tem como não amar uma criança de 5, 6, 7, 8 anos?? É possível isso?? Não estou julgando ninguém, por favor, apenas queria entender,como não abrir o coração prá uma criança de cinco anos? Vi alguns casais que tem a pele parda e querem filhos brancos… não entendi, mas cada um sabe de si. O que quero aqui é analisar e pensar em uma criança um pouco maior, normalmente essa criança tem um, dois irmãos, claro que há pessoas que não tem condições financeiras prá ter dois filhos ao mesmo tempo, mas e quem tem? Digamos que ao engravidar, descobre que são gêmeos, o que vão fazer? Se desfazer de um? Porque toda essa diferença em escolher ao adotar e aceitar o que Deus mandar num filho biológico? Esses são alguns dos obstáculos da adoção e nesses casos não é culpa do judiciário, não há possibilidade de ficar menos que 3 anos na fila de espera com esse perfil. Amor não tem idade, cor, sexo, raça… amor de pai e filho é prá sempre e não há impedimentos prá isso. Um bebê é maravilhoso, lindo, guti guti, mas dá trabalho também, uma criança maior precisa tanto de amor quanto esse bebê que é tão exigido nos perfis que tem por aí! Temos que abrir nosso coração pro amor incondicional, livre de amarras e padrões, temos que acabar com o mito da adoção tardia, não há idade prá amar, não há idade prá ser feliz e formar uma família. Vou pedir permissão prá uma amiga, que adotou uma criança com 7 anos, prá contar aqui a experiência dela, ou então peço prá ela mesmo vir aqui contar… garanto que vocês vão se emocionar ao ler, chorar litros e concordar que criança é criança e todas precisam de amor, não existe amor maior!

Tá aí minha mistura de sentimentos… ansiosa, feliz, triste, sonhadora… 

 

Pelo Amor…

“Quando você veio, nós não quisemos saber de nada,
Quisemos apenas amá-lo.
Não quisemos profetizar se será bom ou mau,
Simplesmente nós o amamos.
Dividimos com você a nossa cama.
E pedimos que você dividisse seu amor com a gente.

Não olhamos detalhes.
Não escolhemos o seu sexo… você nos surgiu, nos escolheu.
Não lhe demos um ventre durante os nove meses,
Mas lhe demos a certeza de um grande amor pela vida afora.
Juntos até o fim.

Não lhe demos um seio para te alimentar,
Mas lhe demos mãos trêmulas de emoção
Numa mamadeira feita com carinho.
Não lhe demos estadia na maternidade,
Mas lhe oferecemos nossas noites de vigília.

Hoje você é nosso porque nós o amamos,
Porque sofremos na carne o seu “dodói”.
Nós somos de você
E você é Nosso, porque sem você
Nossa família agora seria incompleta.

Porque você é nosso pelo AMOR.
Você é nosso pela espontaneidade,
E não por obrigação.
Você é parte integrante da nossa Vida.

Porque em vez de você sair da Gente,
Você ENTROU na Gente.
Você está impregnado.
Nos nossos soluços e nos nossos risos,
Nas nossas vitórias e nas nossas derrotas.
Você é o complemento.

Você meu filho, é o espaço que preencheu
O grande vazio que existia dentro de cada um de nós.”

Autor Anônimo.

Devolução.

Uma matéria num jornal de TV, mostrou a situação aonde um menino de 12 anos, depois de ficar cinco anos com a “família” adotiva foi devolvido. Não é caso raro, ouvi e li muitas histórias de “pais” que devolveram seus filhos “adotivos”. Vamos analisar alguns casos… Eu mesma, quando criança fiz muita peraltice, entre elas, estava dentro do carro com meus primos e decidimos soltar o freio de mão… pensem no desespero dos nossos pais ao verem o carro descendo rua abaixo? Nem por isso fomos abandonados. Minha cunhada deixou meu sobrinho de três, quatro anos sozinho no carro por dois minutos, ele simplesmente girou a chave e buuuum, o carro bateu no portão, fora os danos materiais, nada aconteceu, minha cunhada não o abandonou. Quantos filhos biológicos fogem de casa, aprontam, tiram notas baixas na escola, falam palavrão, fazem greve de fome, batem nos irmãos menores, riscam paredes, dizem querer ir morar com a avó, colocam fogo nas cortinas??? Quantos deles são devolvidos? Opaaa, mas filho biológico não tem prá onde e nem prá quem devolver… então, eu quero entender o motivo de ser diferente, porque um filho biológico pode tudo e o “adotivo” qualquer deslize, qualquer careta é devolvido pro abrigo? O amor não é o mesmo? Não é o amor incondicional de pai e mãe? Nós, adultos, quando temos uma desilusão amorosa, perdemos o emprego, perdemos um amigo ou um ente querido, não ficamos psicológicamente abalados? Muitos até procuram ajuda, agora imaginem uma criança, que passou boa parte da vida num abrigo, finalmente encontra uma família e depois de algum tempo, por despreparo, por egoísmo ou seja lá o que for, é devolvida? Alguém imagina o transtorno psicológico dela? As marcas que esse ato inominável deixarão na sua vida? Eu sinceramente não consigo imaginar, muito menos entender que pessoas passem por todo o processo e a burocracia na adoção, toda a papelada, as entrevistas, as reuniões, o curso, a fila de anos de espera e depois devolvem as crianças!! Isso é um absurdo e acho que além de indenização prá criança, a pessoa que fizer isso, deveria passar na cadeia o tempo que ficou com essa criança, sem julgamento, sem apelação! Ficou cinco anos com uma criança e devolveu depois, vai passar cinco anos na cadeia! Isso mostra também que o nosso sistema é falho, como uma adoção não foi concretizada em cinco anos?? Porque tanto tempo? Mas isso não justifica, pode levar dez, quinze anos, amor de pai e mãe é prá sempre, alguns “adotantes” já vão nas reuniões com o intuito de perguntar sobre a devolução.. Como você vai devolver seu filho?? É por essas pessoas, que acham que adotar é caridade, que a adoção no Brasil é cada vez mais burocrática, cada vez mais exige-se mais dos pretendentes e cada vez menos crianças são adotadas e por isso eu e você, que já amamos essas crianças mesmo antes de conhecê-las, vamos ficar três, quatro, cinco anos esperando, é por essas pessoas egoístas, sim porque só pensam no seu umbigo, que teremos alguns anos de espera pela frente e essas crianças que estão nos abrigos, terão alguns anos da sua infância roubados, algumas até nunca serão adotadas! Por isso fica aqui além da minha indignação, o meu apelo: Se você tem alguma dúvida, se alguma vez passou pela sua cabeça que se não der certo você devolve a criança pro abrigo, se você não está preparado prá amar incondicionalmente, por favor, desista! Não faça uma criança sofrer!!!  

 

Adoção Tardia.

A adoção de crianças com mais de três anos é considerada “adoção tardia”. Esse termo é baseado no desenvolvimento infantil, pois a partir desta idade a criança já desenvolveu autonomia parcial: não usa fraldas, come alimentos sólidos, ou até come sozinha, fala, anda, não é mais considerada um bebê.

 O principal receio dos pretendentes é a história pregressa das crianças, o medo do passado, das vivências que já acompanham esse serzinho, e o receio de não saber lidar com isso. Fica-se com a impressão de que um bebê é mais facilmente “moldado”, que é mais fácil amar um bebê totalmente dependente do que uma criança maior.

 Numa pesquisa realizada por Weber (2001), com mais de 240 famílias adotivas, percebeu-se que as adoções ditas tardias são diferentes das adoções de bebês apenas na fase de ajustamento. As dificuldades encontradas referem-se aos processos de socialização, da dinâmica familiar e práticas educativas da família, ou seja, poderiam acontecer também com um filho biológico ou uma adoção de bebê.

 Mas para optar por uma adoção tardia é preciso preparo, abertura e disposição para enfrentar a fase de ajustamento. A história da criança pode ser marcada por dor, abandono, sofrimento, negligência. Os pais devem focar na construção do vínculo afetivo, em fazer com que a criança se sinta segura e amada, e que possa confiar novamente em um adulto.

 A adoção tardia tem algumas características próprias, que podem acontecer seqüencialmente ou ao mesmo tempo, lembrando sempre que cada caso é um caso, e a intenção desse texto é apenas dar uma idéia aos novos pais sobre o assunto. 

 • Fase do encantamento ou lua de mel: a criança faz de tudo para agradar os novos pais e se sentir parte da família, isso geralmente ocorre no estágio de adaptação (que pode durar 1 ou 2 meses, com crianças até 6 anos, mas pode se prolongar por mais tempo com crianças maiores).  

 • Fase de testes: quando a criança se sentir “escolhida”, ela passará a testar os novos pais, com provocações, agressividade, tudo para ver se os pais realmente a amam e se não irão abandoná-la (como nas vivências anteriores). Neste momento é preciso ser firme, impor limites e regras, mas sempre com afeto e carinho. Enfrentar as birras com firmeza, mas sempre deixando claro que você é a mãe da criança, e será para sempre, mas que agora ela precisa guardar os brinquedos, por exemplo. Na psicanálise dizemos que a criança pode projetar na mãe adotiva, inicialmente, toda a raiva sentida pela genitora que a abandonou. Isso acontece por um período, e se a mãe adotiva conseguir acolher essa raiva com amor, sempre colocando que será mãe da criança para sempre, que ela o ama e não irá deixá-lo nunca, essa fase irá passar, naturalmente. 

 • Regressão: A criança passa a agir como bebê, a fazer xixi na cama, a pedir colo a toda hora, ou querer usar chupeta. É como se ela quisesse viver todas as fases que não viveu com a genitora com você, é um renascimento nessa nova família. Quando a regressão começa a acontecer vemos como algo positivo, uma necessidade dessa criança se vincular a essa nova família, a construir uma história nova e viver a fase de bebê e renascer nessa nova mãe. Atenda com naturalidade, ela precisa desse espaço e tempo para a formação de um vínculo. 

 • Adaptação: Não se assuste se no começo da convivência ela trouxer uma linguagem inadequada, ou comportamentos aprendidos no período de abrigamento. Dê tempo para que a criança se adapte aos costumes e hábitos de sua família. Também não tente apagar a história dela. Tire fotos de todos do abrigo, e se ela quiser retornar em alguns momentos para ver alguém, permita. Mas deixe que isso seja espontâneo, não force, vai depender do vínculo que ela construiu com os cuidadores. Com o tempo naturalmente ela irá se afastar e se reintegrar a nova vida.

 Para essa nova vida, é importante sempre celebrar a adoção, fazer fotos de diversas situações, independente da idade da criança. Você pode montar um álbum com foto do dia em que se conheceram, a primeira vez que ela foi até a sua casa, a primeira noite que dormiu na sua casa, o dia que conheceu os avós e tios, tudo é fundamental para marcar essa nova fase! Faz parte do renascimento dessa criança, registre e mostre como foi especial para você!

 Cada criança traz uma história, diversos grupos de apoio à adoção auxiliam casais no pós adoção, mas dependendo da situação e da história vivida, aconselho um apoio psicológico para a criança e os novos pais. As pessoas são diferentes, e para alguns pode ser mais difícil lidar com determinadas situações. Por isso a adoção tardia deve ser pensada e preparada, pois exigirá bastante dos novos pais.

 Para encerrar esse artigo, seguem dois depoimentos, um de uma criança adotada tardiamente, e outro de uma mãe, retirados do livro Adote com Carinho, da Psicóloga Lídia Weber (Curitiba, Juruá Editora, 2009). 

 “Não importa se consegui ser adotada com mais idade. Foi maravilhosa essa sensação que eu tive quando sentei no colo do meu pai pela primeira vez… a sensação de ser amada e poder amar, e ter certeza de que essa pessoa – o pai ou a mãe- que eu estava esperando há tanto tempo! Deus coloca os pais certos na hora que ele achar que você vai ser feliz. Deus colocou minha mãe e meu pai na minha frente quando ele achou que era a hora de me dar meus pais e eu sou profundamente feliz.  S., 15 anos.

 Tão fantástico como apresentar um mundo a um bebê é redescobri-lo, junto com seu filho através da adoção tardia.  L. L., mãe de dois filhos.

 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.

 VARGAS, Marlizete Maldonado. Adoção tardia: da família sonhada a família possível. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1998. 

 WEBER, Lídia Natália Dobriansky. Adote com Carinho. Curitiba: Juruá Editora, 2009. 

  Pais e filhos por adoção no Brasil. Curitiba: Juruá Editora,  2001.

Psicologia da Adoção.

Última entrevista…

Essa semana tá corrida, pois o marido tá de folga e além da entrevista fomos na casa do meu pai na quinta, na sexta fomos na casa de um amigo dele do trabalho, sábado vamos na casa da minha amiga irmã Aline e domingo é dia de filar aquele almoço da sogra… Mas vamos ao que interessa… fizemos nossa última entrevista com a “nossa” psicóloga na quinta, ela fez mais algumas perguntas e perguntou se gostaríamos de acrescentar algo, releu nosso perfil e mudou algumas coisas, pois na primeira entrevista queríamos uma criança até dois anos, agora queremos dois irmãos, um até três anos e o mais velho até sete anos. Como sempre foi tudo normal e eu sempre me senti muito á vontade com ela e dessa vez não poderia ser diferente. A Fer foi junto e a psico conversou sozinha com ela, enquanto isso ela pediu que escrevêssemos uma carta aos nossos filhos, eu sinceramente não tive dificuldades e só não escrevi mais porque minha letra é horrível e eu não sei escrever sem linhas, hahahahahahaha.Fizemos algumas perguntas também e no final ela disse que vai enviar seu relatório para o Ministério Público e logo sai a sentença, aí se for favorável a juíza assina e estamos habilitados, entrando no CNA, aí é só esperar o abençoado telefonema que vai mudar nossa vida! Enfim, subimos e conquistamos todos os degraus, foram dias planejando e noites em claro sonhando… é difícil acreditar que tudo muda em pouco tempo, que antes era a correria prá arrumar a documentação, depois a espera prá marcar o curso, mais entrevista e o parecer final! Estou me sentindo grávida, tenho vontade de sair comprando tudo, mas não sei por onde começar e nem posso, pois não sabemos se serão dois meninos, duas meninas, um casal… não importa, na hora saímos feito doidos comprar o que faltar…É uma sensação maravilhosa, algo que eu nunca havia sentido antes, tenho vontade de chorar, de pular, cantar e gritar… Acredito e tenho fé que nossa sentença será favorável prá nós e sairá logo e se Deus quiser, logo nossos filhos estarão aqui, conosco, dando e recebendo amor, correndo pela casa, deixando brinquedos espalhados pelo chão, jogando vídeo game com o pai e a irmã, pedindo prá mãe fazer aquele doce de sobremesa… Logo realizaremos nosso maior sonho, sermos pais… Nossa família estará completa e assim começaremos a escrever a mais linda história de amor, o amor pelos nossos filhos, tão esperados, desejados, tão amados desde já, meu coração arde, meus olhos lacrimejam e minhas mãos tremem só de pensar…Nossos filhos!!!

Família Coragem.

Nós, pais adotivos, de vez em quando somos alvo de verdadeiras pérolas, como as clássicas “Gostaria de ter a sua coragem” e “Você é uma pessoa especial”. Nessas ocasiões, somos obrigados a lidar com um refinado tipo de preconceito: o que se disfarça de elogio. Geralmente quem fala está crente que está abafando. Mas nunca está.

Considerando, inclusive, que gestantes não costumam ouvir algo assim, o preconceito, filho da ignorância, subjaz em tais afirmativas como um dos grandes e persistentes mal-entendidos sobre a adoção, que é supô-la uma espécie de caridade. Não somos caridosos. Tornamo-nos pais porque desejamos ter filhos e entendemos que a adoção é um caminho legítimo para satisfazermos esse desejo. E assim entendemos porque descobrimos que só de uma relação afetiva pode nascer pais e filhos.

Quem imagina que uma família adotiva é resultado da coragem da caridade ou uma espécie de “projeto social” não entendeu ainda o verdadeiro sentido do fazer-se pai e mãe. 

Por isso, sempre reagi com estranheza àquelas pérolas. E, em muitas vezes, respondi algo como “Coragem?! Não. É só amor sem coragem mesmo”. Isso porque sempre achei que corajoso é aquele que perde a chance de ter filhos. Claro, nem todo mundo está vocacionado para ser pai ou mãe, e bendito seja todo aquele que age em coerência com suas vocações (ou que desenvolve suas vocações em coerência com seus desejos). É que a busca por meus filhos decorreu desde sempre da minha natural vontade de ser pai. Então, coragem pra quê?

Mas eis que recentemente deparei-me com uma nova e inesperada variação daquela “joia não tão rara”. Quando chegávamos a certo local, mandaram-nos essa: “Chegou a família coragem!”. Sei bem que quem disse isso referiu-se em particular ao fato de minha esposa e eu termos quatro filhos, um número inesperado para os padrões de hoje. Mas, para mim, isso é um detalhe. Pais e filhos não se medem na quantidade. É fundamentalmente uma questão de qualidade. Ninguém é mais pai ou mãe porque tem essa ou aquela quantidade de filhos. Dou a cada um dos meus filhos a atenção que muitos filhos únicos não conseguem receber.

Só que, dessa vez, passei uns dias pensando nessa história de “família coragem”… Então, fui tentar entender que coragem é essa de que tanto se fala. Por que pais adotivos seriam pessoas corajosas?

Recorri ao livro A coragem de conviver, de Luiz Schettini, de onde extraí esse elucidativo trecho: “No amor o que valoriza a decisão não é a consciência de ter escolhido o apropriado, mas a certeza de que todas as outras possibilidades não se comparam à escolha que fizemos”. Em tal perspectiva o amor é entendido na sua acepção mais especial, qual seja a atitude de acolhimento pleno do outro. É o que poderíamos chamar aqui de um amor profundo.

Definitivamente, o amor profundo nada tem a ver com beneficência, filantropia ou altruísmo. Tampouco é aquele “amor qualquer” que tão facilmente dizemos sentir por um ou outro, mas que raramente revela-se na nossa ação para com eles. O amor profundo não é eventual ou seletivo, mas manifesta-se perene e independente de como seja ou do que faça o ser amado. É, portanto, incondicional e não se esgota nunca porque é um amor aceitação. E, sendo também um amor ação, consiste, por excelência, no cuidar de quem se ama. Fora disso é pura exortação descomprometida, discurso vazio e inconsistente.

Tornar-se pai e mãe de verdade é, por assim dizer, viver cotidianamente o amor profundo. É ter atitude adotiva porque só por meio dela nos movemos da vivência biológica à convivência afetiva. E isso não conseguimos sem abdicarmos um pouco de nós mesmo, sem experimentarmos uma espécie de renúncia prazerosa. Sim, porque, se não houver prazer, não é mais amor, é uma forma qualquer de obrigação ou dependência. 

A esse respeito disse um homem que soube amar com profundidade: “Um covarde é incapaz de demonstrar amor. Isso é privilégio dos corajosos” (Mahatma Gandhi). É… Talvez seja preciso mesmo um tanto de coragem para nos tornarmos pai e mãe.

(Guilherme Lima Moura)