Meu filho chegou, e agora?

Olá, pessoal. Vim falar um pouco sobre o “chegou, e agora?”.
O que falarei vale para adoção tardia, ou seja, para crianças em idade escolar.
O estágio de aproximação, aquele em que vcs vão para onde está a criança e convivem com ela aos finais de semana ou durante alguns dias direto, é um momento de conhecimento mútuo importantíssimo.
Ele é que permitirá a vcs terem uma noção bem superficial de quem é este filho que está lhes chegando às mãos e tb permitirá à criança conhecer superficialmente vcs, aqueles que lhe disseram que seriam seus futuros pais.
Crianças em adoção tardia já possuem uma história passada que não pode jamais ser esquecida. Elas passaram por um período de abrigamento que tb tem reflexos significativos em sua vida e maneira de ser.
Assim, estes primeiros momento são importantes para se ter uma noção, enfatizo que é muito vaga, sobre quem é esta criança.
Nunca deixem de dar a si mesmos e à criança este tempo antes da guarda provisória ser concedida, ok? Ele é fundamental e indispensável!
Se o fator dinheiro pesar, antecipem-se agendando férias e fazendo um pé de meia para arcar com os gastos necessários. Mas tentem não abrir mão deste período. Ele será importante para o que virá a seguir.
Assim que se recebe a guarda provisória temos pais doidos para integrarem a criança ao novo lar e crianças que de regra não tem qq ideia do que isso seja!!
Chegando em casa, de regra a criança deverá logo em seguida iniciar em uma nova escola.
Aqui ocorre a primeira questão importantíssima a ser discutida por nós:
E se, como ocorreu na esmagadora maioria dos casos, a criança chegar com um significativo atraso escolar??
A atitude imediata dos novos pais é “correrem atrás do atraso”, transformando a casa em escola, e pais em professores.
Esta não é a atitude que deve ser tomada pelos novos pais.
Ao contrário do que possam imaginar isso será mais prejudicial do que positivo para a formação da nova família.
A criança que chega, mesmo sendo maiorzinha, é um novo membro naquele ambiente e núcleo familiar. Ainda tem de ser integrada a ele, ser tornada parte dele, antes de se pensar em recuperar o de regra significativo atraso na escola.
Os pais não devem jamais assumirem o papel de professores, mesmo que o sejam por profissão, por mais difícil que isso possa lhes ser.
Quando um filho chega e transforma um casal em família, seja ele biológico ou adotivo, é necessário se dar tempo à família para se estruturar e firmar os vínculos de afeto que farão dela uma verdadeira família.
Ser pai e professor é impossível. A primeira escola de toda criança é o seu lar e lá ela deve PRIMEIRO DE TUDO aprender a ser amada e a amar. Isso é que lhe permitirá descobrir o prazer de estudar e aprender.
Se um filho chega aos 5 ou 6 ou 7 anos, ele chegará atrasado na escola. Não saberá, como regra, o que as demais crianças sabe, pois desde que entraram no ambiente escolar foram estimuladas pelos pais que a amam e que amam a terem prazer em estudar.
A criança que chega em adoção tardia chegará com uma história que não lhe permitiu conhecer o amor que os novos pais querem lhe dedicar. Devem aprender este amor antes de se pensar na escola e na recuperação do atraso escolar.
Se os pais assumirem e priorizarem, como é extremamente comum ocorrer, a recuperação escolar estarão, inadvertidamente, ensinando seus novos filhos que é isso que uma família faz: dá aulas para as crianças, a casa é uma escola, e o afeto é decorrência do esforço escolar e da recuperação do “atraso”.
Ela concluirá que é assim que as famílias são. O amor é a satisfação dos pais quando ela acerta, aprende, alfabetiza-se. E que o fracasso tem por consequência perder o amor dos pais. O afeto passa a ser condicional ao sucesso acadêmico e a relação entre pais e filhos se resume ao mundo acadêmico.
Assim, como a criança não sabe o que é amar e ser amada, os adotantes devem esquecer temporariamente o atraso acadêmico do filho e focar quase que exclusivamente na vinculação afetiva.
E o que raios é isso de que se fala tanto!! O que é exatamente vinculação afetiva??
O afeto e o vínculo afetivo é para nós algo tão normal que sequer nos damos conta de que é algo inerente a nós.
Mas não é algo inerente a quem perdeu a família de origem, viveu abrigada por vezes longo tempo.
Assim, temos de ensinar aos filhos que chegam tardiamente em adoção o que é o afeto e o que é o vínculo afetivo. Isso, como todos nós sabemos, não é algo que se ensine falando, e sim algo que se ensina e se aprende vivendo.
Os pais devem dar afeto incondicional (que nada tem com falta de educação) ao novo filho e ele, vivendo este afeto, o assimilará como parte de si mesmo e compreenderá intuitivamente o que é e assim saberá como dá-lo em retorno aos novos pais.
A criança que chega em adoção tardia pode apresentar dois tipos interessantes de comportamento:
Ou ela estará distante, como que tentando manter uma distância segura dos adultos que lhe disseram que seriam seus pais; ou ela recebe e dá com a mais absoluta espontaneidade afeito a eles.
Estes dois comportamentos são como que dois lados de uma mesma moeda.
De regra a criança estará mantendo distância sim, pois a vida lhe ensinou que a perda de figuras a quem se apega afetivamente é um fato corriqueiro.
Ela aprendeu a ser espontânea ou reservada nas relações superficiais que tem nos abrigos. Lá todos são cuidados, mas não são amados como pais e filhos se amam. Lá eles possuem roupas, mas tudo é de regra compartilhado. Eles podem ter tido tudo, mas tudo não lhes pertencia com exclusividade.
Assim, é comum que cheguem à nova escola se apropriando do que é dos coleguinhas. Não por maldade, não pq queiram roubá-los! Mas pq aprenderam que o que está entre eles pertence a quem da coisa se apropriar e enquanto tiver a sua posse.
A escola deve ser preparada para enfrentar esta situação sem estresses desnecessários, ensinando A TODAS AS CRIANÇAS que devem ter seus nomes em todas as suas coisas e que emprestar é legal e devolver á pessoa cujo nome conste do objeto é mais legal ainda.
O cuidado dos pais é esclarecer a escola para evitar que ela enfrente a situação como sendo caso de “roubo” e punindo o novo filho como se infrator fosse e não é!
Outra manifestação comum que preocupa e entristece os novos pais em adoção tardia é a facilidade com que o filho se dá com estranhos, mesmo que com eles não sejam tão espontâneo.
Num abrigo todas as crianças são tratadas igualmente pelos estranhos que visitam a instituição, nas festas de que participam. Elas aprendem a se relacionar superficialmente com os adultos ao seu redor pois é isso que se espera delas.
Com os pais podem não ser tão espontâneos pois percebem que a relação é diferente, mas não sabem como se comportar com eles, pois nunca lhes foi ensinado ou vivenciaram saudavelmente como esta relação deve ser vivida.
Por isso é comum que a criança regrida. Ou seja, ela volta algumas etapas de seu desenvolvimento para permitir-se, junto com os pais, reescreverem sua história e ai sim conseguir e saber se relacionar saudavelmente com eles.
Na regressão é comum que ela priorize uma das figuras parentais, não raro as mães. Eles se apegam inclusive fisicamente a elas, ficam irritadiças, birrentas, irascíveis mesmo!! Querem colo, chupeta, o peito (nunca dê se não sentir espontaneidade nisso), grudam de tal forma que as novas mamães ficam profundamente cansadas como que sendo sugadas pelo filho.
Esta fase não deve ser estimulada, mas deve ser aceita com paciência, amor e compreensão.
Ela não durará muito. Será cansativa, estressante, mas breve! E a criança sairá dela renovada, vcs verão!! Sairá segura de si e do amor dos pais (se a aguentaram nesta fase terrível só podem mesmo amá-la, não é??), pronta para enfrentar o mundo lá fora INCLUSIVE O ACADÊMICO!
Ai terá chegado a hora de se enfrentar eventual ainda não sanado atraso escolar.
Mas antes da vinculação afetiva, JAMAIS, pelos motivos que acima apontei!
Educar um filho que chegou tardiamente é outro ponto que confunde os adotantes.
Logo percebem que tirar coisas não resolve. O filho como que não dá a mínima importância por lhe tirarem tv, jogos, ou qq outra coisa de que gostem.
Vejam, quem é esta criança que vcs estão punindo por privação?? É alguém com doutorado em perdas!! O que é uma tv, um celular, um jogo, para quem perdeu a coisa mais importante que é a família, a mãe, o pai??
Não punam nem por palmadas (por motivos mais que óbvios quando falamos de crianças adotivas) nem por privação. Eduque pelo reforço positivo!! Estimule o ter ao invés do perder. Ensine-a a desejar se comportar para ter, de início coisas e logo se tornará o ter sua aprovação.
Não demonstre decepção quando erram. Isso de início poderá não representar nada para elas. Elas ainda não sabem ser amadas e amar e sem isso a decepção do outro ou a ppa não é relevante para elas.
Não pergunte se fez algo se sabe que fez: afirme que fez e qual a consequência pelo feito. Veja, não é punição e sim consequência pelo que foi feito. Oriente calmamente sobre como fazer algo de forma correta e pq não se deve fazer da forma socialmente reprovável. Oriente, demonstre as consequências e reforce quando acertarem sem querer ou propositalmente.
Assim, em resumo, temos:
1. no início é o afeto, só o afeto, nada mais que o afeto;
2. ser afetivo não significa não educar. educar é fundamental, mas não por privação e sim por reforço positivo;
3. deixe o atraso escolar para o ano que vem!! mas se não resistir a tentar, contrate alguém para dar aulas LONGE do novo lar para a criança, não mais que uma vez por semana e se sentir que após as aulas a criança fica distante afetivamente, desista por enquanto;
4. entregue à coordenadora pedagógica da escola o texto FASES DA ADOÇÃO TARDIA para que ela se inteire do processo e ao compreendê-lo não vitimize seu filho. DEFENDA-O sempre perante a escola. Lembre-se ele é a criança que não foi educada e a escola ambiente onde deve ser incluído e não excluído. Ajude a escola a entendê-lo e desenvolver estratégias que beneficie seu filho;
5. a regressão é difícil, mas é breve (poucos meses) e necessária, pois facilita a vinculação e permite a pais e filhos estruturarem em bons termos a relação que os acompanhará pelo resto da vida familiar;
6. procure sempre ajuda nas dificuldades. As vezes algo que lhes pareça complicado demais, difícil demais, precisa apenas de um olhar de fora para ser compreendido e assim enfrentado;
7. se possível, procure até antes da provisória, psicólogo que acompanhe os primeiros meses de convivência familiar. será um bom investimento em sua família!
Os grupos de apoio à adoção estão ai para ajudar a compreender o processo adotivo, a vinculação afetiva, e a estruturação familiar por adoção!! USE-OS sempre que precisarem e quiserem!!

Texto de Rosana Silva.

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