Família Coragem.

Nós, pais adotivos, de vez em quando somos alvo de verdadeiras pérolas, como as clássicas “Gostaria de ter a sua coragem” e “Você é uma pessoa especial”. Nessas ocasiões, somos obrigados a lidar com um refinado tipo de preconceito: o que se disfarça de elogio. Geralmente quem fala está crente que está abafando. Mas nunca está.

Considerando, inclusive, que gestantes não costumam ouvir algo assim, o preconceito, filho da ignorância, subjaz em tais afirmativas como um dos grandes e persistentes mal-entendidos sobre a adoção, que é supô-la uma espécie de caridade. Não somos caridosos. Tornamo-nos pais porque desejamos ter filhos e entendemos que a adoção é um caminho legítimo para satisfazermos esse desejo. E assim entendemos porque descobrimos que só de uma relação afetiva pode nascer pais e filhos.

Quem imagina que uma família adotiva é resultado da coragem da caridade ou uma espécie de “projeto social” não entendeu ainda o verdadeiro sentido do fazer-se pai e mãe. 

Por isso, sempre reagi com estranheza àquelas pérolas. E, em muitas vezes, respondi algo como “Coragem?! Não. É só amor sem coragem mesmo”. Isso porque sempre achei que corajoso é aquele que perde a chance de ter filhos. Claro, nem todo mundo está vocacionado para ser pai ou mãe, e bendito seja todo aquele que age em coerência com suas vocações (ou que desenvolve suas vocações em coerência com seus desejos). É que a busca por meus filhos decorreu desde sempre da minha natural vontade de ser pai. Então, coragem pra quê?

Mas eis que recentemente deparei-me com uma nova e inesperada variação daquela “joia não tão rara”. Quando chegávamos a certo local, mandaram-nos essa: “Chegou a família coragem!”. Sei bem que quem disse isso referiu-se em particular ao fato de minha esposa e eu termos quatro filhos, um número inesperado para os padrões de hoje. Mas, para mim, isso é um detalhe. Pais e filhos não se medem na quantidade. É fundamentalmente uma questão de qualidade. Ninguém é mais pai ou mãe porque tem essa ou aquela quantidade de filhos. Dou a cada um dos meus filhos a atenção que muitos filhos únicos não conseguem receber.

Só que, dessa vez, passei uns dias pensando nessa história de “família coragem”… Então, fui tentar entender que coragem é essa de que tanto se fala. Por que pais adotivos seriam pessoas corajosas?

Recorri ao livro A coragem de conviver, de Luiz Schettini, de onde extraí esse elucidativo trecho: “No amor o que valoriza a decisão não é a consciência de ter escolhido o apropriado, mas a certeza de que todas as outras possibilidades não se comparam à escolha que fizemos”. Em tal perspectiva o amor é entendido na sua acepção mais especial, qual seja a atitude de acolhimento pleno do outro. É o que poderíamos chamar aqui de um amor profundo.

Definitivamente, o amor profundo nada tem a ver com beneficência, filantropia ou altruísmo. Tampouco é aquele “amor qualquer” que tão facilmente dizemos sentir por um ou outro, mas que raramente revela-se na nossa ação para com eles. O amor profundo não é eventual ou seletivo, mas manifesta-se perene e independente de como seja ou do que faça o ser amado. É, portanto, incondicional e não se esgota nunca porque é um amor aceitação. E, sendo também um amor ação, consiste, por excelência, no cuidar de quem se ama. Fora disso é pura exortação descomprometida, discurso vazio e inconsistente.

Tornar-se pai e mãe de verdade é, por assim dizer, viver cotidianamente o amor profundo. É ter atitude adotiva porque só por meio dela nos movemos da vivência biológica à convivência afetiva. E isso não conseguimos sem abdicarmos um pouco de nós mesmo, sem experimentarmos uma espécie de renúncia prazerosa. Sim, porque, se não houver prazer, não é mais amor, é uma forma qualquer de obrigação ou dependência. 

A esse respeito disse um homem que soube amar com profundidade: “Um covarde é incapaz de demonstrar amor. Isso é privilégio dos corajosos” (Mahatma Gandhi). É… Talvez seja preciso mesmo um tanto de coragem para nos tornarmos pai e mãe.

(Guilherme Lima Moura)

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