MAIS UM DIA SEM MEU FILHO por Silvana Moreira

 

Tentarei, hoje, falar em primeira pessoa e tentar fazer com que você, que lê esse pequeno texto, se coloque também em primeira pessoa. Espero que você sinta no seu eu o que passo a relatar.
Hoje acordei sem meu filho. Vi as horas passarem no interminável tic-tac do relógio de cabeceira. Tic-tac, tic-tac, tic-tac… o barulho rítmico parecia perfurar meu cérebro e aumentar ainda mais o vazio de minha alma.Penso, repenso, rolo na cama. Do lado, esquerdo, meu marido dorme o sono dos justos. Mais um dia sem nosso filho.Levanto, ando pela casa, entro no quarto que se mantém aberto e arejado. Sento na pequena cama, estico o lençol, coloco o travesseiro no lugar, arrumo os bichinhos de pelúcia… são tantos. O urso foi presente da vovó Matilde, o cachorrinho – que late e abana o rabo –do dindo Heitor pelo aniversário de um ano de J. Ah… o anjinho que recita uma prece: “Santo anjo do senhor, meu zeloso guardador…”, caí em pratos silenciosos por 15 minutos, talvez um pouco mais, um pouco menos. O anjinho, azul com lindas asas prateadas, foi presente do padre que batizou J. Arrumo um a um cada brinquedo: o trenzinho, os carrinhos, o baldinho de praia… J. gostava muito de ir à praia conosco.Limpo a tela de sua TV em formato de carrinho, vermelha, linha, há cerca de 3 meses não é ligada. Será que preciso ligar? Liguei. Passava um programa infantil, como sempre, pois, os canais que J. gosta são os infantis. Que cabeça a minha…Em cima da mesa tem o laptop de J. que foi presente do vovô João. Laptop de criança também no formato de “carros”. J. ama o barulhinho dos jogos. J. ri, se diverte, é uma criança feliz. É ou era? Volto a chorar ao lembrar que hoje acordei sem meu filho.Fui na cômoda ver como estavam as roupinhas. Será que ainda servem? Será que ele cresceu nesses quase 3 meses? E os sapatinhos? Penso que não tenho como vê-lo, saber se cresceu, engordou, se está bem, será que tem ido ao médico todos os meses? Novas lágrimas vertem dos meus olhos.Quanto tempo já se passou? Olho o relógio na cabeceira de J.: 10 horas? Já estou aqui há 5 horas? Não vi o tempo passar!Ouço um barulho, mínimo, tímido. Olho para porta: João, pai de J., meu amado marido, está de pé, olhos vermelhos. Há quanto tempo ele está ali? Desde quando me observa? Não perguntei, não nos falamos, temos nosso código de olhar, simplesmente nos dirigimos lentamente para um forte abraço de amor e dor. Hoje, acordamos sem nosso filho.
A HITÓRIA DE J.
J. nasceu em um lindo dia de agosto, forte, bonito, 4 kg 100gr, 52 cm, APGAR 9: perfeito. João, orgulhoso, cortou o cordão umbilical enquanto eu fotografava tudo enquanto dava a mão a Maria, genitora de J.Maria tem mais 4 filhos, todos de pais diferentes. Maria me procurou no colégio onde sou professora, estava grávida pela quinta vez, não sabia quem era o pai. Implorou para que nós, eu e João, fossemos os pais do filho ou filha dela, não sabia se era menino ou menina, não tinha feito pré-natal.Conversei com João, fomos à vara da infância. Nós éramos habilitados há cerca de 1 ano e os primeiros da fila. Nossa cidade é pequena, menos de 20 mil habitantes. Eu não era amiga da Maria. Maria conhecia uma aluna minha que sabia do nosso desejo de sermos pais.Fomos, João, eu e Maria, até a Vara da Infância para que Maria soubesse como funciona a tal da adoção consensual, tudo o que foi dito foi devidamente anotado pelos técnicos da vara. Estávamos, todos, certos de que tudo estava dentro da Lei e que estávamos atuando “sob os olhos da justiça”.Seguimos. João nasceu e cuido dele desde que saiu da barriga de Maria. Ela não olhou nem queria ficar com ele. Registrou no nome que nós escolhemos e saiu de nossas vidas. Éramos todos tão felizes…Os estudos foram feitos: psicólogos, assistentes sociais, as guardas iam se vencendo e sendo renovadas, enquanto isso J. crescia, começava a andar, a falar. Querem saber qual a primeira palavra? Mama! Imaginam como fiquei feliz? Chorei, ri, rodei com J. por todo o nosso quintal junto com Félix, nosso vira-latas. Foi lindo… pena que não filmei aquele momento único, pois, hoje, acordei sem meu filho.Soube que Maria casou, cidade pequena, tudo se sabe, todos se conhecem. Parece que Maria estava bem, homem de idade, rico, com carro importado. Deu um carro para Maria.Dois anos se passaram. J. está lindo, anda, fala, come bem, ama a família, o Félix, os amiguinhos, tem até namorada, uma não, três na creche do fim da rua aonde vamos a pé todas as manhãs vendo os passarinhos, as flores. Eu levo e João o traz no pescoço. Quer dizer… eu levava e João o trazia nos ombros, porque hoje nós acordamos sem o nosso filho.Recebemos de nosso advogado a informação da audiência e lá fomos no dia 13 de setembro. Conversamos com Maria que estava com sua mãe, D. Elza, entramos na audiência e lá Maria disse que queria J. de volta, que era direito dela, que a “lei” dizia isso e que ela sabia que o filho era dela.Nosso mundo caiu, J. fui buscado, por mim e por alguém da justiça, não lembro quem nem qual o cargo, se olhar para essa pessoa não saberei identificá-la. Trouxe J. para o fórum, fiz uma mala, coloquei brinquedos, roupas, comida, e lá entreguei J. a Maria com um “termo de entrega” ou algo parecido. Desde então nós acordamos todos os dias sem o nosso filho.J., dois anos, saudável – pelo menos era -, nunca levou uma palmada sequer, tinha rotina de alimentação, acordava às 7h, chegava à creche às 8h, voltava para casa às 13h, dormia até às 17, acordava, jantava com papai e mamãe, brincava até às 21 horas, mamava e dormia.J., dois anos com papai, mamãe, dois vovôs, duas vovós, inúmeros tios e primos, padrinhos, amigos e 3 namoradas, além de Felix, era uma criança feliz e plenamente atendido em todas as suas necessidades afetivas, emocionais, psicológicas, materiais e sociais. J. tinha e fazia parte de uma verdadeira família.Os estudos sociais e psicológicos do processo, todos, foram favoráveis à adoção de J. por mim e por João. Até agora não entendo onde errei? Você sabe? Sim, você que está lendo: o que fizemos de errado?Nós somos habilitados, fizemos tudo certo, sem erro, éramos os primeiros da fila, não tomamos uma decisão sozinhos, pedimos auxílio da vara, então o que fizemos de errado? Porque hoje acordamos sem nosso filho?
Saindo, agora, da primeira pessoa: o que eles e tantos outros pais vitimas do biologismo exacerbado fizeram de errado? Por favor, apontem os erros com o dedo em riste, precisamos saber para que outras pessoas não os cometam.Vamos analisar primeiramente o emblemático Caso Duda/MG: o que Valbio e Liamar fizeram de errado? Habilitados há anos, chamados pela vara, criança abrigada, colocação com guarda provisória regularmente concedida em processo de adoção, decurso de tempo de mais de 3 anos, estudos sociais e psicológicos favoráveis a adoção. Onde está o erro? Caso R./RJ, dois anos de regular exercício da guarda provisória regularmente concedida em processo de adoção consensual, estudos sociais e psicológicos favoráveis, desistência da genitora, entrega da criança à genitora. Onde está o erro? Vários outros casos estão na mesma situação com uma reversão no Espírito Santo onde a família biológica, ao fim, desistiu de reaver a criança.Mais uma vez, onde está o erro?Podemos nos arriscar numa análise fria da questão sem adentrarmos nas especificidades de cada caso: a morosidade do judiciário que não imprime a devida, e constitucional celeridade, aos processos que envolvem crianças e adolescentes.Além do Estatuto da Criança e do Adolescente existem leis que versam sobre essa questão nos seguintes estados, dentre outros: Lei nº 15.097, de 23 de julho de 2013 de São PauloLei nº 5059 de 05 de julho de 2007 do Rio de janeiro Lei nº 2585 de 10 de setembro de 2009 da IpatingaEntão como se justifica dois anos para a realização de uma audiência de ratificação no caso das adoções intuitu personae? Ou um ano que seja? A audiência tem que ser realizada com celeridade, assim como a ela devem preceder os estudos técnicos que convalidem que o melhor interesse da criança estará sendo atendido através de sua adoção. Três meses são mais que suficientes para um “suposto” arrependimento e não poderá configurar abandono. Agora aguardar 9 meses, um, dois anos alem de ser uma péssima prestação jurisdicional é, acima de tudo, um desrespeito com o sujeito de direito que merece e tem, constitucionalmente, prioridade absoluta e a proteção do Estado onde se incluí, por obvio, do judiciário.Voltamos ao caso Duda: três anos para a família se reestabelecer? O que é isso? Que fundamento legal é esse?Vamos retornar aos prazos e desculpem-me, em primeira pessoa, pois, agora sou eu mesma, se estou sendo ácida, mas a questão merece: o art. 162 do ECA determina que as ações de destituição do poder familiar devem estar concluídas em 120 (cento e vinte) dias, 120 dias se não me falha a memória são 4 meses, nem um dia há mais. Assim, por óbvio, a audiência de ratificação da entrega da criança em adoção (art. 166, § 1º) poderá e terá que ser realizada imediatamente com mais celeridade, por óbvio, do que a tramitação de toda uma ação de destituição do poder familiar. Qual a dificuldade nessa realização? O que falta a nossos magistrados? Acredito que tenha uma ou duas respostas: (1) Equipes técnicas; (2) vocação.Vamos à análise: entendo, smj, que a audiência prevista nos §§ 1º e 3º do art 166 independe da prévia realização dos estudos técnicos e justifico – a Lei determina o que segue:
Art. 166.  Se os pais forem falecidos, tiverem sido destituídos ou suspensos do poder familiar, ou houverem aderido expressamente ao pedido de colocação em família substituta, este poderá ser formulado diretamente em cartório, em petição assinada pelos próprios requerentes, dispensada a assistência de advogado§ 1o  Na hipótese de concordância dos pais, esses serão ouvidos pela autoridade judiciária e pelo representante do Ministério Público, tomando-se por termo as declarações.§ 2o  O consentimento dos titulares do poder familiar será precedido de orientações e esclarecimentos prestados pela equipe interprofissional da Justiça da Infância e da Juventude, em especial, no caso de adoção, sobre a irrevogabilidade da medida.§ 3o  O consentimento dos titulares do poder familiar será colhido pela autoridade judiciária competente em audiência, presente o Ministério Público, garantida a livre manifestação de vontade e esgotados os esforços para manutenção da criança ou do adolescente na família natural ou extensa.
Ou seja, os genitores (§ 2º) precisam ser orientados acerca da medida pelas equipes técnicas (psicólogo e assistente social, quando existem na lotação da vara), não precisam ser submetidos a estudos técnicos antes da audiência.No caso, antes da ratificação em audiência com a obrigatória presença do MP, os genitores podem passar por uma reunião na sala de atendimento da equipe técnica, ou, na ausência de equipe, da Defensoria Pública ou do Próprio MP para que tenham a plena convicção do que estão fazendo e de suas reais implicações. O que há de tão difícil em tal procedimento? Estou sendo simplista? Caso o magistrado, ou o próprio MP, não se convençam dos reais motivos da entrega aí então que se proceda com os genitores os respectivos estudos.Com relação aos adotantes os estudos são obrigatórios, indispensáveis e necessários à instrução processual que embasará a decisão do Juízo, mas, também, não podem demorar 6 meses, um ou dois anos, pois, nesse decurso de tempo a criança pode estar em risco. Querem mais provas além das que já temos? Então vamos lá: o caso da procuradora que maltratou a criança no RJ e estava presa até recentemente; inúmeros casos de devolução depois de 1, 2 anos de convivência – essas devoluções, na minha concepção incabíveis – poderiam ter ocorrido com 3 meses, 6 meses no máximo reduzindo drasticamente o sofrimento da criança revitimizada pelo abandono.Mas, vamos acusar os adotantes, tanto os que adotam consensualmente quanto os que adotam pelo cadastro como no caso Duda. Em outra ponta vamos acusar os que devolvem, mesmo que não tenham recebido uma única visita de acompanhamento pela assistente social, mesmo que nunca tenham sido chamados para uma mera entrevista com a psicóloga judiciária. A culpa sempre será deles, adotantes, que passaram 2 anos para se habilitarem, passaram por uma reunião informativa, por 3 reuniões obrigatórias nos grupos de apoio à adoção – indispensáveis, por sinal -, uma entrevista social, uma entrevista psicológica, mais 2, 3 anos na fila e tornaram-se experts, doutores em adoção. Me perdoem, mas…não existe formação para o que se enfrenta no exercício da parentalidade seja natural, adotiva ou qualquer outra forma que exista, se é que existe.Já disse: estou crítica, acida, cansada…cansada por ELA que acordou sem seu filho, cansadas por ELES que há três meses acordam sem o filho, cansada por R. que há mais de seis meses acorda sem os pais, cansada por Valbio e Liamar que acordam todos os dias com medo de perderem Duda, cansada pelos cinco irmãos de Monte santo que estão desaparecidos, escondidos não se sabe – ou se sabe até demais – as razões. Simplesmente cansada…Então volto a ser EU, a mãe que acordou sem seu filho e pergunto: e se fosse com você? Se fosse a sua carne a sua alma arrancada de você? Se fosse o sujeito do seu afeto, do seu amor, do seu cuidado arrancado de sua vida? Se fosse você, pai ou mãe, a cheirar diariamente a roupinha de seu filho que não mais está lá? E se fosse o seu filho? Ele está acordando todas as manhãs sem você! Ele tem pesadelos na madrugada e não são os seus olhos que ele encontra para acalmá-lo, não são os seus braços a aninhá-lo. E SE FOSSE O SEU FILHO!!!!!! E SE FOSSE VOCÊ!!!!!


Silvana do Monte Moreira

Diretora Jurídica da ANGAAD

Presidente da Comissão de Adoção do IBDFAM

Coordenadora dos Grupos de Apoio à Adoção Ana Gonzaga I e II

Principalmente e antes de tudo: mãe que não sabe como não se colocar no lugar de outra mãe que “hoje, acordou sem seu filho”.

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Último dia de 2013.

Pois é, dia 31 de Dezembro de 2013… Meu Deus, como a nossa vida muda em segundos, dias, meses!!!! Ano passado, nesta mesma data eu jamais imaginaria que eu passaria por todo o processo de adoção, jamais imaginaria que seria mãe novamente! Automaticamente, mesmo sem querer você faz um balanço da sua vida nessa época do ano, eu fico boba ao lembrar que eu estava preocupada com banalidades, coisinhas corriqueiras das festas de fim de ano. Analisando bem, sem maiores alardes ou qualquer outra coisa, nosso processo foi muito rápido, nossa gestação durou sete meses, desde o dia 15 de março que foi o dia que entregamos a documentação no cartório, até o dia 16 de outubro, que foi o dia que recebi a indicação das meninas… uaaaaaaaau sete meses!!! Não tenho palavras prá descrever tudo que tenho passado, digo por mim pois só eu escrevo aqui, o Du é super discreto e reservado e nem eu sei ao certo quais os devaneios dele, só sei dizer que todos, todos mesmo estamos muito felizes, a receptividade da família e amigos com elas e delas com familiares e amigos foi a melhor possível, tem horas que me pergunto se é normal tanta tranquilidade porque eu estava preparada prá uma batalha dupla e infernal!!! Minhas meninas são uns doces, umas queridas, claro que ainda carregam o jeitinho do Shrek, mas devo confessar que eu adoro isso, são crianças e tem suas fases e se eu ensinei meus sobrinhos a arrotar, porque não ensinaria minhas filhas???  Aos poucos vou comentando aqui como foram nossas festas de fim de ano, mas já adianto que iremos passar a virada de ano só nós quatro, a Fer foi prá Florianópolis e as famílias tem outros compromissos, nós não saímos de casa na virada porque temos nossas três filhas peludas e com os fogos elas ficam maluquinhas, quem ama cuida e eu as amo demais prá deixá-las sozinhas!

Quero deixar registrado aqui que não desisti das crianças abrigadas, não é porque minhas filhas estão comigo que vou esquecer tudo que vi, li e ouvi! Quero partipicar ativamente dos grupos com busca ativa e ainda vou realizar meu sonho e fundar um grupo de apoio com minhas amigas Mamães de Curitiba!  Quero pedir prá que todos se mobilizem em prol das crianças abrigadas, negligenciadas, abandonadas, maltratadas… quero pedir que todos ajudem o caso #ficaduda… Não esqueçam que o futuro do nosso país está nas mãos dessas crianças e que se elas tiverem uma infância com amor, dentro de uma família verdadeira, independente dos laços consanguíneos, elas serão adultos de caráter, honestos, justos, bondosos. Vamos nos mobilizar e mudar verdadeiramente essa lei, uma criança deve permanecer no máximo dois anos abrigada e olha que é muito tempo, muita perda de vida prá um serzinho de total dependência de um adulto. Por favor, vistam essa camisa com amor, esqueçam rótulos, fama, poder, camaradagem… se pode ser feito, faça!! Tire uma, duas, dez crianças de um abrigo e as coloque num LAR, criança precisa de amor de pai e mãe, cuidadoras e tias das casas de apoio nem sempre suprem tudo isso, por favor!

Não vou pedir nada este ano, só tenho a agradecer! Agradecer por ter minha Madu viva e saudável (prá quem não sabe, é minha cachorra mais velha que passou lá nas ruas da morte em abril deste ano), agradecer por termos nos tornado pais em tão pouco tempo, agradecer por nossas filhas serem tão lindas, queridas e amadas… as três bonecas da mãe, agradecer por tudo que passei desde as risadas até os momentos de choro nas crises de frescurite, agradecer até pelo primeiro barraco que fiz na vida em local público, pois só assim percebi que muitas vezes achamos uma coisa e a verdade é outra, agradecer até as mais de 100 horas que o Du trabalhou a mais somente em dezembro, pois assim eu consegui provar prá mim mesma que eu consigo ser mãe em tempo mais que integral e sem muita ajuda, agradecer pelas novas amizades e pelas velhas também, agradecer por ter conhecido pessoas que só acrescentaram algo na minha vida, dividiram experiências, conselhos… enfim… obrigada Deus pelo ano que se finda, que o próximo venha com toda luz e amor que seja possível!

Claro que quero agradecer á vocês todos que vem aqui, deixam recados, palavras de amor e carinho, comecei a escrever prá desabafar e esperar meus filhos, mas fui recebendo tanto carinho que hoje eu escrevo prá vocês, de todo meu coração! Espero sinceramente que eu consiga ajudar e contribuir com algo bom nas suas vidas, quem está na fila não desista, persista mas jamais mude seu perfil prá acelerar o processo, quem apenas lê porque simpatiza, o meu muito obrigada! Adotar grupo de irmãos é maravilhoso, vocês não tem noção da cumplicidade entre eles, o trabalho é dobrado mas o amor também é! Que 2014 venha lindo, radiante, que Deus os abençoe e ilumine seus caminhos, desejo de todo meu coração que todos encontrem o amor e a felicidade, assim como nós. Adotar é tudo de bom, ADOÇÃO É FAMÍLIA, ADOÇÃO É AMOR, ADOÇÃO LEGAL É PRÁ SEMPRE!!!!  Obrigada, obrigada… deixo aqui uma despedida de 2013, meu ano maravilhoso e ímpar… Fiquem com Deus, Feliz 2014!!!!!!

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Continuando…

As meninas estavam ansiosas prá vir prá Curitiba, não falavam em outra coisa a não ser que elas estavam vindo ou queriam vir logo prá Curitiba. Na quarta-feira acordamos ás 7 da manhã, fomos tomar café e já estava combinado que depois do café iríamos tomar banho e arrumar as coisas prá vir prá casa. Elas estavam eufóricas, quase não queriam comer prá ir se arrumar logo, café, banho, cabelos e as deixei só de calcinha enquanto eu tomava banho e me arrumava, elas ainda não tem o cuidado com as roupas, tudo é limpo nas roupas, tudo passa pelas mãos e depois pelas roupas, então aproveitando o calor, fiz assim mesmo , dei a desculpa de que tudo estaria na mala e se sujasse não poderíamos entrar no avião, eu não achei uma boa ficar estressando elas com brigas sobre roupas, imaginava como estaria a cabecinha delas e a última coisa que eu queria era que algo desse errado. Tudo arrumado, uma última checada no quarto do hotel e lá vamos nós fazer o check out, nesse momento em que deixamos o hotel e entramos no táxi meu peito apertou, um misto de alívio, sonho realizado e a responsabilidade de duas vidas nas nossas mãos, mais uma vez não reparei no caminho, apenas agradeci mentalmente á Deus e a cidade que me deu dois presentes maravilhosos!  Ficamos com medo da reação delas ao embarcar no avião e também com a viagem, conversamos e explicamos como era bom viajar e na verdade nem precisava, a ansiedade e a vontade de vir prá casa era tanta, que ambas dormiram algumas boas horas no vôo. Falando em vôo, meu Deus… embarcamos ás 14h e chegamos ás 22:30 aqui… duas escalas, uma em Recife e outra em São Paulo, oito horas dentro de um avião é dureza viu, ainda mais com a ansiedade e o cansaço que eu estava! Desembarcamos aqui no horário previsto e como combinado a Fer iria nos buscar, minha sogra e minha kunhada também estavam nos esperando, não aguentaram a ansiedade prá conhecer as meninas, fizemos uma ótima viagem, o desembarque foi tranquilo e a recepção maravilhosa. Como de costume estava frio e a Fer lembrou de levar uma cobertinha prá cobrir as meninas, já que saímos do Nordeste com trinta e poucos graus e chegamos aqui com doze!  Ao chegarmos aqui, elas não queriam descer do carro, começaram a chorar com medo das cachorras, quando saíram do carro, não queriam sair do colo e ficavam com os pezinhos levantados, chorando e pedindo prá tirarmos as cachorras daqui, aos poucos fomos contando que elas são boazinhas, que são como bebês, que são suas irmãs peludas e que não mordem e elas foram se acalmando, levou uma hora prá que elas aceitassem que as cachorras não iriam mordê-las e assim já estavam fazendo amizade e fazendo carinho nas três peludas. A hora passou rápido e quando vi passava da meia noite e as meninas acordadas, olhando tudo e encantadas com o quarto cheio de mimos prá elas, explicamos que estava tarde e que elas precisavam dormir e descansar pois iríamos sair no dia seguinte e no outro, no outro e elas acabaram desmaiando na cama! Finalmente estávamos em casa, nós cinco, nossa família estava completa. 

No dia seguinte estava frio e elas não tinham sapatos prá usar, decidimos ir ao shopping comprar um tênis prá elas e depois ir na minha mãe. Chegamos no shopping e fomos passear, olhar vitrines, compramos tênis, sapatilhas, chinelos e então o Du disse que queria comprar um celular de brinquedo prá elas, já que elas estavam brincando com dois aparelhos antigos que ele tinha guardado. Claro que eu fiquei andando com elas enquanto ele iria até a loja de brinquedos, resolvi entrar numa loja de roupa infantil e comprar mais agasalhos prá elas, pedi prás duas sentarem e esperarem a moça trazer as roupinhas prá elas, a mais nova agarrou numa prateleira e puxou a fileira de roupas, me olhou e correu prá vitrine mexer, quase quebrou tudo, puxei ela pelo braço e a fiz sentar no chão, a vendedora trouxe as roupas e eu pedi prá mais velha se levantar e tirar o casaco que eu queria que ela provasse o outro casaco que a moça tinha trazido, ela me olhou com um olhar desafiador e disse: “Você não sabe que não vai servir em mim? Não vê que eu sou grande?” e continuou a me encarar, pronto, chegou minha hora de mostrar quem manda! Paguei o que tinha comprado e puxei as duas pelo braço prá fora da loja, elas reclamaram que estava doendo e eu segurei mais firme e disse que elas estavam proibidas de abrir a boca, nisso o Du estava vindo atrás de nós mas elas não viram ele, eu vi e fiz sinal que estava tudo bem, ele continuou atrás de nós e eu fui indo em direção ao estacionamento, elas assustadas não falavam nada. Cheguei perto do carro e o Du se mostrou prá elas, aí o choro correu solto, mandei engolir o choro que eu não tinha batido e não iria bater em ninguém, mas que eu estava cansada de ser chamada de tia, de fazer tudo prá agradá-las, de estar me esforçando prá ser uma boa mãe e elas não estavam colaborando com nada, que elas não me obedeciam, não me respeitavam e que se elas estavam achando que eu estava brincando de mãe e que iria desistir delas, elas estavam enganadas, falei que desde que vi suas fotos, sabia que elas eram minhas filhas e que assim seria até o fim da vida, mas se elas não me queriam como mãe eu iria embora e deixaria elas só com o papai! Olhinhos arregalados, soluços em meio ao choro e Não queremos que você vá embora, mamãe! Desculpa!  Falei que não queria cara feia, que estávamos indo na casa da vovó e que ela não merecia ver as duas com cara de bunda suja, mas queria que elas soubessem que eu estava triste com a atitude delas e que se não tivéssmos combinado de ir na casa da vovó elas viriam direto pra casa! Dois minutos depois elas estavam com um sorriso no rosto e a história começava a mudar, agora era mamãe… mamãe… mamãe… mamãe você é linda, mamãe quero ir no teu colo, mamãe coloca comida no meu prato? mamãe quero ir com você… 

#FicaDuda

QUEM É DUDA??
Por Rhô Silva

Duda é a filha com que longamente sonhamos. A menina sapeca, peralta, risonha, arteira, bailarina que vemos correndo em nossos lares.
Duda é a criança amada, protegida, querida, cuidada, educada com carinho e afeto por todas nós mães.

Mas Duda é hoje um ícone para a Família Adotiva brasileira.

Ela é na mente de todos os adotantes, que detenha guarda provisória para fins de adoção, o filho amado e tão longamente sonhado que neste momento está na escola estudando, lá fora brincando com esguicho no jardim, correndo com o cachorro da vizinha na frente de casa, na sua cama dormindo o sono de uma criança segura de que é amada e de que seu mundo é seguro e estável.

Duda é o sonho dolorido de todos os pais e mães por adoção, tão longamente acalentado, passado pela comprovação de entrevistas sem fim, pela invasão de suas casas, vidas, corpos e mentes, por juízes e promotores de justiça para poder se tornar realidade.

Duda é o filho gestado na mente e coração de cada pai e mãe por adoção neste imenso país por longos anos a fio. Dois, três, quatro, cinco anos de uma gestação sem barriga, criticada por todos ao redor que não compreendiam o quanto o amor é desvinculado do sangue e do gene.

Ela é Samueis, Selmaras, Laurinhas, Stephanyes, Marias Eduardas, Luans, Ricardos, Danilos, Danieis, Emanueis, Déboras, Julias, Lucas. Ela é branca, preta, parda, morena, cabocla.

Duda é hoje para cada pai e mãe por adoção o símbolo da desimportância dada às famílias adotivas do Brasil. Duda é a comprovação de que famílias podem ser “provisórias”, meras casas de passagens enquanto genitores irresponsáveis e cruéis recebem do Estado-Juiz todas as chances para “se recuperarem” e terem de volta as crianças-objetos de que são donos para perderem e reaverem conforme seus interesses e vontades.

Duda é o medo no semblante de cada pai e mãe adotivos ao contemplar seu filho ou filha mais amado, medo doido e indefeso de perde-los para seus antigos algozes.

Ela é a expressão máxima da má aplicação das leis de defesa e proteção da criança e adolescente. Leis estas que colocam o Brasil entre os mais avançados no mundo na proteção de sua infância e juventude, mas cuja aplicação vilipendia sua alma de justiça.

Duda não é objeto de propriedade de qualquer adulto. Não “pertence” aos genitores ou a qualquer outra pessoa ou instituição. Ela é uma pessoa humana em desenvolvimento que recebe da Constituição Federal e leis ordinárias PROTEÇÃO PRIORITÁRIA, INTEGRAL E EXCLUSIVA.

Duda tem o direito de ter o seu bem jurídico mais humano, mais digno, mais caro tutelado COM PRIORIDADE ABSOLUTA e com EXCLUSÃO de qualquer outro direito pertencente a qualquer outra pessoa humana no mundo: O AFETO QUE DEDICA À SUA FAMÍLIA.

Não família “substituta”! Não família “provisória”! Pois o AMOR não é provisório ou substituto.

A justiça mineira deve respeito a todas as famílias ADOTIVAS (não provisórias nem substitutas) brasileiras ao decidir o destino de Duda, a menina de Contagem.

Este respeito à todas as FAMÍLIAS que ousaram amar além da carne e do sangue só se fará com decisão que RECONHEÇA A PRIORIDADE ABSOLUTA do direito de Duda de viver COM SUA VERDADEIRA FAMÍLIA. A família adotiva que a acolheu, amou, respeitou, educou, protegeu e ainda luta contra a hedionda possibilidade de vê-la privada de tudo o que para uma criança de sua idade é mais sagrado: A SEGURANÇA DE SE SABER AMADA E PROTEGIDA POR PAI E MÃE QUE AMA “PARA SEMPRE”.

Cada pai e mãe brasileiros, não biológicos, não adotivos, mas apenas e tão somente PAIS E MÃES, devem olhar seus amados filhos e vê-los com a pequena Duda e sentir em suas mentes e corações a repercussão do Caso Duda para a FAMÍLIA BRASILEIRA.
Duda, tão pequenina e já um símbolo (Deus queira não uma mártir) da ADOÇÃO LEGAL E PARA SEMPRE.

Duda deve ficar com sua VERDADEIRA FAMÍLIA, como única manifestação concreta da Justiça e do Bom Direito. É o que ORDENA nossa Constituição Federal e o Estatuto da Criança e do Adolescente.

FICA DUDA!! FIQUEM TODAS AS CRIANÇAS EM PROCESSOS DE ADOÇÃO LEGAL COM SEUS VERDADEIROS PAIS!!

Rosana Ribeiro da Silva
Diretora Jurídica do AleGrAA
Membro da Comissão de Adoção da 37ª Subseção da OAB/SP
Assessora Jurídica da ANGAAD