Adoção e Sociedade. Sávio Bittencourt.

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Falar sobre a adoção em família e sociedade é essencial para se vencer a ideia de que a filiação biológica é superior a adotiva. Esta impressão é sub-repticiamente lançada por expressões comuns e aparentemente inofensivas.

“Quantos filhos são seus mesmo?”
“Este é seu filho mesmo ou adotado?”
“Este é o que você está criando?”.

Sei que as pessoas não fazem por mal, mas exteriorizam uma visão preconceituosa da adoção quando agem assim. TODOS os filhos são nossos, em afeto, em amor, em construção de nossa biografia em conjunto. Todos os filhos, biológicos ou adotivos, são criados por nós. Nosso cuidado, exercido no dia a dia, é que nos legitima como pais. A ausência desse cuidado é extremamente prejudicial a filhos, biológicos ou adotivos. Temos que criá-los todos.

O pai adotivo deve conviver amavelmente com estes inocentes preconceitos, com coragem de simplesmente negá-los, com um sorriso confiante de quem sabe que a adoção gera um amor tão profundo que dele não se pode falar sem emoção, sem palpitação.

Todo filho é “de verdade” quando você o ama intensamente; todo filho é ‘seu mesmo’ quando você é honesto com ele; todo filho é ‘de criação’ quando você lhe dá prioridade.

Sávio Bittencourt.

Quem ama adota.

Sávio, coloquei esse nome no post porque não encontrei definição melhor, caso não esteja do seu agrado, por favor me avise.

Há quem cogite longinquamente a possibilidade de adotar uma criança, mas esbarra em contra-indicações socialmente difundidas, oriundas de um profundo preconceito que permeia o tema. As dúvidas que surgem nem sempre são teoricamente complicadas, mas antes passam por pré-concepções tão batidas em nossa vivência cotidiana, por nossos familiares, amigos e pela própria mídia.

É a cultura do “filho de criação”, alguém acolhido materialmente por uma família, mas que não ostenta todos os requisitos inerentes a um filho de verdade, não se mistura no carinho integral os membros da família se concedem mutuamente.

Deste vício inicial surgem muitas incompreensões que vão sendo tomadas como verdades eternas, sabedoria ancestral, que seguem a lógica falsa da prudência, apontando seu dedo torto para problemas inexistentes.

São miragens míopes, que os moribundos do deserto da falta de afetividade pensam ser reais. Como os sedentos esfomeados na areia escaldante, as pessoas que estão privadas de conviver com o amor pleno têm também delírios: enxergam oásis inexistentes de vidas absolutamente seguras, longe de qualquer risco ou improviso. E com a visão entorpecida por esta ingênua pretensão, privam-se do melhor da vida e continuam sua viagem trôpega pelo deserto de afeto.

O filho adotivo é tão amado como o biológico? É essa a primeira dúvida que surge quando alguém pensa em adotar. Não se deve pensar que é crime ter tal insegurança, já que ela faz parte de nosso ideário social há décadas. Crime é não superá-la, pelo espírito de amor revolucionário que existe em potencial em cada um de nós. Amor divino, que não se submete à lógicas egocêntricas e a determinismos cafonas, fora de época.

O filho adotivo é uma dádiva: um ser que o pai adotivo não poderia nunca ter gerado, por advir biologicamente de outros cromossomos, mas que permite que ele destine a jazida de afeto que estava ociosa em seu peito. Na verdade só os filhos adotivos são amados. Mesmo os filhos biológicos são adotados por seus pais biológicos, quando há amor e cuidado. O psicólogo Luiz Schit- tini Filho costuma dizer que todo filho é biológico e adotivo: biológico porque é o único meio de se vir ao mundo e adotivo por que precisa ser amado, amparado e criado.

Assim, para crescer um segurança emocional todo ser humano precisa ser adotado. Daí inexistir nenhuma distinção entre a filiação biológica e adotiva, em relação ao amor que se sente. O amor é adotivo. Se há amor, é caso de adoção, mesmo que o filho tenha sido gerado pelo pai.

Podemos, então, esquecer completamente o mito da filiação biológica como passaporte garantido para uma relação amorosa entra pais e filhos.

Os abrigos abarrotados de filhos biológicos que não foram adotados por seus genitores são um testemunho trágico de que ter sido gerado por alguém não importa necessariamente na existência de amor. Os adolescentes de classe média, andando de moto e fumando maconha, largados nas cidades por pais desleixados também demonstram o mesmo.

Pois então podemos ser livres para amar o diferente e celebrar os encontros de alma. Não precisamos imitar o que a natureza eventualmente negou. Pode o branco amar o negro e vice-versa, na qualidade ímpar de pai e filho, fazendo das famílias uma dádiva da brasilidade, famílias coloridas e amorosas, que escolheram o amor como elemento de liga. Quem ama adota.

Sávio Bittencourt