Outono

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Ficou suspensa quando soube que seu ventre não geraria uma criança. Um sonho alimentado desde que se entendia por gente, com as primeiras bonecas, bebês quase perfeitos, tinha até uma que chorava, chorava. E ela chorava compulsivamente, abraçada ao marido.

– Por que meu Deus, por que logo comigo?

– Calma, amor, vamos encontrar uma saída.

– Como, uma saída? Você não ouviu o que o médico disse? É genético. Por isso minha irmã nunca engravidou. O problema é comigo, você não tem culpa de nada. Sou eu, sou eu.

– Lembra quando ainda estávamos namorando, planejando nosso futuro? Eu dizia que queria muitos filhos e você só queria dois, para poupar seu corpo? A gente combinou em gerar dois e adotar mais, lembra? A gente ainda pode adotar.

– Lembro, mas éramos jovens e tolos, imagine que bobagem, me preocupar com a aparência. De que adianta esse corpo se ele não serve para nada?

– Não diga isso, ainda vamos adotar muitos filhos, você vai ver, mas não precisa pensar nisso agora. Vamos para casa. Nada como uma boa noite de sono. Você está precisando.

Depois que ela dorme, ele se levanta e fica na varanda olhando do alto as luzes dos carros, as ruas como veias pulsando com o abre e fecha dos semáforos, a cidade alheia aos sonhos desfeitos. 

No quarto escuro, as sombras se moviam pelas paredes, imitando o movimento das árvores, hoje, mais agitadas que o normal, anúncio de tempestade. Todos os medos da infância nela. Aquelas manchas projetadas nas paredes sempre metem medo na gente. A vontade de ir ao banheiro era menor do que o medo de enfrentar aqueles monstros. Os colegas roncavam sem preocupações com os fantasmas que habitam a imaginação. Ela então decide vencer o medo, levanta-se e vê a fila de camas do dormitório. Uma maior outra menor, alguns beliches, berços. Aquela irregularidade à noite tornava o abrigo um lugar assustador, como um depósito de móveis assombrados. Segura sua bonequinha maneta e vai rezando a oração que aprendera, não lembra bem quando, repetindo sempre a mesma parte: livrai-nos do mal, amém, livrai-nos do mal, amém. Já estava ali há seis anos à espera de uma mãe que ainda há de aparecer.

Com a barra do dia vem o sobressalto. Acorda ofegante, olha-se no espelho e vê os olhos de quem chorou dormindo. Dias e mais dias seguidos, os mesmos olhos inchados. As mesmas noites de choro. O pesadelo se repetindo: ela no abrigo à espera de uma mãe que não chegava nunca. 

No espelho, uma árvore que nunca deu frutos definhando. As lágrimas como folhas caindo aos montes no início do outono e escasseando a cada dia, o rosto desinchando aos poucos, murchando, murchando, semana após semana, ano após ano.

Via televisão com os olhos perdidos, fixos num ponto muito além da tela. Não fazia um comentário. Ouvia as vozes do marido, dos amigos e respondia apenas vou pensar, vou pensar, mas não pensava nunca. 

No intervalo da novela um comercial trouxe de volta seu olhar. 

– Mamãe, eu nasci de você? 

– Por que a pergunta minha filha?

– Porque na escola falaram que não.

– Antigamente mamãe vivia triste aí você chegou e eu virei a pessoa mais feliz do mundo. Se te perguntarem se fui eu que te coloquei no mundo, você diz que foi o contrário, você diz que foi você que me colocou no mundo.

Pela primeira vez em muito tempo os olhos ficaram úmidos. Virou-se para o marido, olhando-o de frente como costumava fazer.

Como ele envelhecera, os cabelos grisalhos, os olhos fundos, a pele encarquilhada. Vamos adotar um filho? Ele engole seco. Agora, minha velha? Sim, agora mesmo. Vá, levante-se e inscreva a gente na fila de adoção. Vá, tá esperando o quê? Tá certo, meu amor, vamos nós dois juntos, mas amanhã bem cedinho, agora está tudo fechado, acalme-se, vai dar tudo certo.


A assistente social anotou os dados com a maior paciência. Lembrem-se de que existe uma fila e isto poderá demorar um pouco, mas quem sabe vocês dão sorte, não é mesmo? 
O telefone mudo, a espera interminável, a incerteza habitando os pensamentos, não aguentou mais aquela situação e caiu doente. Ele não tinha como cuidar dela, com a saúde frágil também, o reumatismo instalado. Muito a contragosto aceita a ideia de uma enfermeira para tomar conta dela, mas primeiro ela fazia questão de entrevistá-la. Não pode ser qualquer uma.

– Conte, minha filha, você é casada? Tem filhos?

– Não, minha senhora, fui criada num abrigo da periferia. Era meio precário, um casarão velho que foi reformado. Era muito triste, mas eu sobrevivi, consegui terminar o ensino fundamental e fazer o curso de enfermagem pela escola técnica estadual. Meu sonho era morar numa casa assim como a sua e ter um quarto só para mim, como a sua filha teve. A senhora conservou ele muito bem. Parece até que está pronto para receber uma garotinha. É para sua netinha? Senhora, senhora, está me ouvindo?

No criado mudo ele encontrou um bilhete inacabado, “Querido, não consegui separar minha alma do meu corpo e fiquei presa como uma borboleta num traje de escafandrista, como naquele livro que lemos juntos. Quando penso que nossos sonhos estavam tão perto, uma inscrição, uma fila pequena. Nem mesmo no seu trabalho como voluntário no grupo de apoio à adoção eu quis me envolver. Que tolice a minha. Quero que saiba que lhe admiro muito por todo o carinho que tens comigo, mas te admiro mais ainda por esse trabalho que deve ter dado nascimento não apenas aos filhos, mas também a muitos pais e mães. Agora entendo que dar nascimento é um ato da alma e não do corpo. Mas o tempo, ah, o tempo ________________________”. 

* João Gratuliano é consultor de empresas, escritor e irmão adotivo.